MARIAS, MARIA.

Acorda homem, acorda!
Quantas Marias terão ainda que nascer
Para que creias?
É por acaso que nasce o sol
Toda manhã?
E pelo mesmo acaso, escolhe ele
A quem dirige seus raios?
E nas manhãs cinzentas,
Quando cai a chuva,
Deixa o sol de existir?

Acorda homem! Toma a tua cruz.
Quantas Marias ainda terão que nascer
Para que creias?
Marias – Maria, Marias – José.
Marias – João, Marias – Tomé,
Maria Júlia, Maria Silva,
Maria Clara!
Acorda Homem… Acorda!
Quantas sementes ainda terão de morrer,
Espalhadas pelo caminho?
Semeias tu, ao acaso
O pão que tens a colher?
Por acaso, lhe é cobrado o sal da terra,
Que germina a semente;
Ou mesmo a boca,
Com a qual mastigas o pão?
Não seria por ti
Que desta semente,
Criança inocente,
Um anjo brotou?!

Acorda homem… Acorda!
Toma a tua cruz.
Quantas Marias terão que morrer,
Para que creias?
Marias-Maria, Marias-Luzia,
Marias-Patrícia… Maria Clara,
Marias-João!?
Acorda homem!
Serias tu, o único na Terra
A não ter um encontro marcado
Sem dia, nem hora,
Com Aquele que é a Glória
E a Ressurreição?
Coragem, homem.
Toma pelas mãos tua Maria,
Semente de amor,
Que um dia,
Da tua cruz,
Alma de luz,
Renascerá!
Coragem homem.
Toma em tuas mãos, outra mão;
Muda a direção…
E vai !

***

A MUSA E O POETA

Casta imagem
De perfeita musa,
Reflete-se na águas
De minhas ilusões.
São tantos os sonhos,
Constantes e incertos:
Parênteses, entreabertos,
Descrevem os desejos
Da vil senhora.
Olhos nos olhos,
Boca a boca,
Peito no peito,
Sentimento na mão!
Casta musa
De sonhos dourados,
Que em versos, retratados,
Mostra-me quem sou:
Infame,
Insano,
Profano,
Devasso!

***

A SOLIDÃO DO MUNDO

Hoje,
alguém estendeu-me a mão.
Pude perceber,
transfigurada em sua face,
a solidão em que o mundo vive.
Ouvi o tilintar das moedas
sucumbindo-lhe as mãos,
sem, no entanto, estancar-lhe
o sangue das feridas.
É Jesus, crucificado e abandonado
Que grita:
– Tenho fome,
Tenho sede,
Tenho frio!

***

ALMAS ETERNAS

Escrever é significar a alma.
No entanto, palavras eu não as quero;
Quero a alma contida entre as linhas.
Assim, se rasgarem todos os livros,
Ainda as terei.
Se queimarem todas as folhas,
Ainda as terei.
Se morrerem todos os seres,
Ainda as terei.
Se apagarem todas as luzes,
Ainda as terei…
E se eu morrer,
Serão almas na minha eternidade.

***

ALMAS OCULTAS

Almas se ocultam por entre as linhas de um doce poema.
Invisíveis, evolam-se, como a fumaça do cigarro, no cinzeiro.
De mãos dadas, flutuam no ar e espalham-se na imensidão do universo.
Almas que se ocultam na vastidão que separa o céu e a terra,
e por entre as linhas deste doce poema traçam os significados de suas vidas.
Voam juntas, entrelaçadas, por entre as palavras vagas, de uma canção.
Não há pontos e nem regras. Não há vírgulas e nem exclamação. Simplesmente, evolam-se.
Almas invisíveis, de ocultos significados.
Almas invisíveis que penetram no coração das pessoas, significando cicatrizes.
Almas que significam a si mesmas. Almas ocultas, em constante evolução.
Almas sentimento, que buscam por um momento, o sumo da vida.
Almas que se misturam entre palavras e encantos, e no enigma do conto,
no entanto, se perdem em desencontros.
Almas invisíveis, ocultas por entre as linhas, por entre os versos, e que,
em reversos, nem sabem se explicar.
Almas de abrigo, almas de tormento, almas de céu e cimento;
Almas invisíveis aos olhos humanos.
Perceptíveis ao coração de um poeta.
Almas que se amam. Almas que se doam.
Almas que por um momento, procuram alento, no doce fulgor de um olhar.
Almas que se enamoram, que se misturam.
Almas que se permitem, que perdem o eixo,
no calor de um beijo, se deixam levar.
Almas que se curtem, que se entregam, que se procuram.
Almas que se encontram.
Almas que significam, que se significam e que significam sentimentos.
Almas que evolam-se como a fumaça do cigarro, no cinzeiro, o dia inteiro.
Almas que se perdem por entre os sons e o choro, das promessas de um namoro, que vai começar.
Almas que permeiam os olhos bonitos.
Almas dos corações aflitos, do eterno dilema.
Almas dos que choram, ao lerem este doce poema.

***

AMANHECER CONTIGO

A luz
Venceu as trevas.
É o raiar de um
novo dia!
Eu O vejo
em todas as coisas:
No azul do céu,
Na nuvem que passa,
Nas côres da borboleta,
No cantar dos pássaros,
Na multiplicidade das flores,
No verde das folhas,
No amarelo do sol,
Na gota da chuva,
Na fecundidade da terra,
No Outro que se aproxima.
Tudo é santo;
Imutávelmente santo!
O pecado foi vencido,
Redimido, eximado.
A cruz jaz,
porém, vazia!

***

AMANTES DE SAIGON

Em suas mãos:
Plumas em neve,
Carícias de um sonho
A se realizar.
Afago dos pensamentos,
Confusão de sentimentos,
Falta de ar!

Em suas palavras:
Murmúrios ao vento,
Cantigas das ondas,
Melodias do mar.
Sussurros ao ouvido,
Portas abertas,
Frases incertas,
Emoções a falar.

Em nossos lábios,
Cúmplices dos devaneios,
As chamas dos desejos
Perdiam-se, em beijos,
Ignorando as lágrimas
Que ocultavam a verdade,
Inconsciente maldade,
Dos nossos corações.

Em nossos lares,
Almas, aos pares,
Aguardavam para o jantar
Os amantes de Saigon;
Que entre uma fala e outra,
Ocultavam na roupa,
O perfume barato,
O baton e o fato
Da medíocre traição!

***

BAILARINA

Foi naquela vez,
Quando conheci Inês,
Que me conheci.
Descobri-me menino,
Quando Inês, menina,
Se fez bailarina
Em meu sonho infantil.

Bailava, bailava,
Num ritmo alucinante,
Tornando-se, a cada instante,
Mais linda, a bela flor.

De repente,
Descobri-me adolescente!
A música não parava,
Inês bailarina… dançava.
E no ofuscar das luzes,
Sem um piscar, se quer,
Inês menina,
Deixou de ser bailarina,
E se fez mulher!

***

BEIJA-FLOR

Um beija-flor
Voava livre
Sobre um jardim.
Beijava a flor
E, com amor,
Vivia assim.
Mas veio o homem
E com maldade
Traçou seu fim:
– Murchou a flor
E o pavor
Matou o beija!
Passou o inverno,
Chegou o inferno
Do calor de verão.
Passou o outono,
E com muito sono,
Outro inverno.
Novamente, a era
De outra primavera:
– Refloresceu o jardim,
Cresceu a flor,
Mas o pavor…
Matou o beija!
Veio de novo
O inverno, o verão.
Passou o outono,
E sem dono,
A flor cresceu.
Mas o beija…
O beija morreu!

***

CASINHA BRANCA

Paredes tão brancas,
Quarto vazio,
Peito vadio,
Em revoada.,
Lua tão bela,
Noite tão clara,
Faço a mala,
Vou partir…,
Paredes tão brancas,
Quarto pequeno,
Tanto veneno,
Quanta solidão.,
A solidão e eu,
Eu e a solidão!,
Pingos constantes,
Chuva imaginária,
Imagem…sonho.,
O sonho e eu,
Eu e você!,
Paredes tão brancas,
Sala vazia,
Casa tão fria,
Vou partir.,
Porta fechada,
Chave arrumada,
Fecho na mão!,
…o olhar,
…o adeus,
O último suspiro:
Me viro…
O último olhar.

Paredes tão brancas,
Casa vazia,
Lágrimas,
Emoção!

***

DAMAS DA NOITE

Anjos caminham pela noite.
Sob os lábios carmim
o veneno se esconde
à espera de uma presa:
Um jovem se entrega
no seu leito da morte!

***

DESPOEMA

Não dou porradas…
Atiro flores!

Joguei flores
Pela minha janela
e as vi despedaçarem-se
sobre palavrões
pixados nos muros.
Joguei flores
pela minha janela
e as vi
cravadas em bandeiras ianques.
Joguei flores
pela minha janela,
e as vi
transformarem-se
num carrossel de dúvidas:
– Não sei se digo EU TE AMO,
ou se saio nu,
desprovido de aromas.
Não sei se levanto
minha bandeira branca
coberta de flores,
ou se pixo palavrões
sobre causas alheias.
Não sei se faço DESPOEMAS,
ou se copio Leminski
e digo que
descobri o Brasil!

***

EMOÇÕES

Lágrimas nos olhos,
Corações palpitantes,
Momentos…
Instantes,
Fascínio total.
Angústias dos dias,
Sombras das noites,
Traços nos rostos,
Alegrias…
Desgostos,
Alucinações!
Labirinto sem portas,
Sentimentos sem nexo,
Desejos sem sexo,
Almas sem paixões.
Mãos na face,
Expressões ocultas,
Olhos molhados,
Membros cansados,
Restos…
Razões!
Sonhos delirantes,
Fantasias coloridas,
Pedaços de vidas…
Emoções!

***

ENIGMAS DA ALMA

Há um enigma que se oculta
No fundo dos teus olhos.
A luz que dele emana
Transcende teu olhar;
E alcançando as sombras,
Ilumina tua alma.

É assim que te vejo:
– Semi-nua!

Não a nudez do corpo;
A nudez da alma.
Alma, que como o negativo
De um retrato em preto e branco,
Aos poucos se revela,
Em cores,
No arco-íris!

***

ENTRE VOOS E POUSOS

Entre vôos e pousos,
Sonha o poeta.
Sonha na mesma intensidade
E da mesma forma
Que a ave, voa.
Entre vôos e pousos,
Sonha o poeta.
Sonha liberdade,
Sonha felicidade,
Sonha o irreal:
Toca a estrela e a lua,
Beija a musa
Que nunca foi sua,
Conquista o espaço sideral.
Entre vôos e pousos,
Sonha o poeta.
Sonha com seu jeito ímpar de sonhar.
Sonhos lindos, coloridos,
De pudor despidos,
Dignos de quem consegue voar.

Voa poeta…voa!
Pousa seu sonha
Nas asas de outra gaivota.

***

ESTRELA DE NINGUÉM

Foste em mim…
Estrela de minhas estrelas;
Razões de minhas razões;
Poesias em minhas poesias,
Paixões,
Alegrias!

Foste em mim…
O sol, de tantos girassóis;
A cristalina água,
Da cascata liberta
De meus sonhos.
Encantos,
Encontros,
Fantasias!

Foste em mim…
Em passado tão recente,
A emoção presente
Em sonhos de amor.

E hoje,
Entre sonhos desfeitos,
Caminhas, sem jeito,
Arrependida da traição.

E no negro céu que te cobre,
Sozinha descobre,
Que se és estrela…
É estrela
Aos olhos de ninguém!

***

FRENESI

Corpos nus,
Usando capuz
Em suas faces rosadas,
Suavam-se em delírios,
Em campos de lírios,
Sob o perfume da flor.
Amavam-se como nunca,
Sonhavam como poucos
Em seus desejos mais loucos
Num frenesi
De fantasias e alucinações.
E ao findar o sonho,
Viram-se numa cama tão limpa,
Com as almas em lama
Brilhando nas chamas
De uma louca paixão.
E o branco lençol de cetim,
Que se fosse por mim
Ali não estaria,
Registrava,
Com gotas de prazer,
A loucura de se ter
O corpo de alguém.

***

IDENTIDADE SEVERINA
(baseado na obra de Antonio da Costa Ciampa – A estória do Severino e a história da Severina)

Este poema nos leva a uma reflexão sobre nossa identidade no mundo.
O que sou, como sou, ou como o mundo me vê.
Faz-nos ver que nossa passagem por estas paragens não é um mero acaso, e que, se faz necessário nos identificarmos com tudo o que somos e com o que fazemos, na medida em que é isso que realmente nos identifica perante o outro e a nós mesmos.
Somos frutos de uma interação com o outro no mundo.
Só existo na medida em que o outro me vê, me identifica.

Sévérino
É um desses cabra nordestino
que vive pelo mundo
Tentando descobrir sua identidade,
Sua particularidade;
Tentando descobrir quem ele é.

Anda errante, Severino,
Misturado à sua gente,
Que perdida, no repente,
Se confunde, na poeira do chão,
Com tantos Sévérinos,
Magros, raquíticos e desnutridos,
Dos cafundós deste sertão.

Anda errante, Severino,
Indagando ao próprio intéstino,
Entre um ronco e outro,
O que de muito, é pouco,
O pouco que sabe de si.

Quem és tu, sévérino?!
Cabra de péste!
Qual é sua identidade,
Sua particularidade;
Aquilo que te difere,
Dessa prole de morimbundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer?!

Severino, Sèvèrino,
Tu num é mais minino,
Precisa sabê quem é!

Severino, Sèvèrino,
Me arrespode pois, seu minino,
Quer saber sua identidade?
Alguma particularidade
que te faça diferente,
Desse amontoado de gente,
Que parece ter o mesmo destino?!
Então me aresponde, cabra da peste:
que nome tem?
Será Sèvèrino, como o outro tomém!

Se    tu, cabra nordestino,
Se chama Sèvèrino,
Como outro qualqué,
Qual é a sua diferença,
Aquilo que te identifica,
Aquela parte que explica,
Se tu é home ou muié!

Quem és tu, sévérino?!
Cabra de péste!
Qual é sua identidade?
Tem que havê uma particularidade,
que te difere,
Dessa prole de moribundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer?!
Tu não nasceste do nada:
Fruto de um cabo de enxada
E uma moita de cipó!

Severino, Sèvèrino,
Me arrespode pois, seu minino,
O nome de seu pai,
De sua mãe,
Ou de sua avó!
Tem que tê alguma coisa
Que te identifique,
Alguma coisa que explique
Quem que tu é!

Severino, sévérino…
Nu mínimo tu é fio dum coroné!
Mais num dá pra sabê;
Sua mãe Maria,
Pári quase todo dia…
E já num sabe de qualé!
Severino, Sèvèrino,
Esse nome não te identifica,
Tu parece de sê
Uma banana nanica
Igual a tantas outras por aí!
Veja só essa gente,
Morre tão de repente…
Sem ao menos sabê quem é.

Mórre não, Severino!
Mórre não, Sèvèrino!
Num seja um moribundo,
Ainda minino.
Que maldade!
Não descobriu sua identidade,
Nenhuma particularidade,
Que o fizesse diferente,
Desse amuntuado de gente,
Que num sabe quem é!

Mórreu Severino!
Mórreu, Severiiinnno;
Como morre tanta gente,
Dessa prole de moribundo,
Que errante pelo mundo,
Morre antes de se conhecer!

Triste morte Severino!
Triste morte, Sèvèrino!

***

MARGARIDAS

BEM-ME-QUER,
MAL-ME-QUER…
BEM-ME-QUER,
MAL-ME-QUER…
ACABEI COM A VIDA
DE UMA MARGARIDA!

***

O AMOR QUE NOS UNE

O amor que nos une
É maior do que o que somos;
Faz-nos ser
Da laranja, o gomo,
Sem que percamos
Nossas personalidades.
É um todo
Que se divide,
Sem perder a totalidade!
É um ser,
Sem ter sido;
É um morrer,
Sem ter morrido;
É o multiplicar-se
Na unicidade.

O amor que nos une,
Faz-nos ser
O que sempre fomos:
Dois pedaços
De um mesmo sonho,
Com os pés na realidade.

O amor que nos une,
Une!
E nos eleva à santidade.

***

O AZUL DOS TEUS OLHOS

Enigmas e mistérios
Inoculam o azul dos teus olhos.
É céu, que refletido no mar,
Funde-se no eterno horizonte
Retido em teu olhar.

É luz, é bálsamo!
Acalanto após o pranto;
Bonança, encanto;
Sublime sonhar!

Enigmas e mistérios
Desnudam-se no azul dos teus olhos.
Suave sabor ácido.
Lascivo,
Passivo,
Plácido!

É espelho que descobre a alma;
É o revelar-se da perfeita calma;
É quietude, é harmonia;
É música, sinfonia;
Eterno despertar!

***

O SÁBIO E O APRENDIZ

No rijo galho da centenária figueira
A fina folha que nascia,
zombava, toda faceira,
Da velha folha que caía.
Em sua queda derradeira,
À mercê do tempo e do vento,
A velha folha sorria
Usufruindo do último momento:
A suave queda que desprendia.

Ressecada pelo tempo,
A velha folha, ao seu final,
Deixava-se levar pelo vento,
Na queda fúnebre, do seu funeral.
E ao som dos pássaros,
Que seus ninhos ali faziam,
A nova folha brotava,
E a velha folha, morria!

Feliz, no entanto,
A sábia folha ensinava
À nova folha que nascia,
Que os cem anos
Que a figueira fazia,
Era devido á seiva doada
Pela velha folha, que jazia!

Inquestionável cio da terra,
Que a mãe natureza veio empreender:
Para que uma nova vida nasça,
A semente tem que morrer!

***

Professor.
Dar-te-ei uma única função, e dela, decorrerá as demais:
‘Ouça o silêncio daqueles que te cercam;
Há nele um grito que ecoa.
Ao ouvi-lo, entenderás o que e como deves ensinar.
Caso não o ouças, faças tu o silêncio necessário’.

***

OUÇA O SILÊNCIO QUE TE CERCA

‘Ouças o silêncio daqueles que te cercam;
Há nele um grito que ecoa.
Ao ouvi-lo, entenderás como deves proceder em teu auxílio.
Caso não o ouças, faças tu o silêncio necessário’.

***

POEMA DIVIDIDO

Ao terminar
De cada poema,
Sinto um dilema
Dividir meus sonhos.
É o ponto onde a fantasia
É maior que a realidade,
E toda verdade
Perde-se em sonhos
E ilusões.
Ao terminar a poesia,
Sinto a saudade vazia
Engolir todas as palavras,
Todas as versões.
É terrível ter que dividir
O significado da escrita,
Com o temor que habita
Estas vidas sem paixões.
E, sem dizer que te amo,
Termino o sonho e te chamo
Para ter-te perto de mim.
Mas o poema dividido
Continua repartido,
E vai se impondo até o fim!

***

POR TEU AMOR

Senhor, fazei com que hoje eu vá ao encontro do outro.
Quero dar o primeiro passo em sua direção e ser o primeiro a amar.
Quero alargar meu coração e ser capaz de acolhê-lo, como Tu me acolheste.
Quero que meus braços sejam capazes de abraçar toda sua dor
e que meu peito seja o refúgio do seu bandono.
Se eu errar, que eu seja humilde o suficiente para pedir perdão e recomeçar.
Assim, ao final do dia, poderei alçar minha cabeça no travesseiro,
feliz por Tê-lo amado no meu irmão!

***

PORQUE ME OLHAS

PORQUE OLHAS MEU ROSTO,
SE O QUE QUERO MOSTRAR-TE
É MINHA ALMA?

TRANSPASSE, POIS, MEU CORPO
COM O FIO DA NAVALHA
QUE PULSA EM TEUS OLHOS E,
JULGA-ME, COM O FEL DA TUA BOCA.

NÃO IMPORTA-ME, MORRER DO TEU VENENO!

MEUS ERROS VÃO FICANDO PELO CAMINHO E,
A CADA TROPEÇO, RECOMEÇO.
ERGO OS OLHOS, E PERDÃO EU PEÇO,
E MEU ‘ACERTO DE CONTAS’…
AH! ESTE É COM DEUS…
O ÚNICO JUSTO QUE CONHEÇO!!!

***

QUANDO O HOMEM AMA

Quando o homem ama
Sua alma se eleva
E a porta do céu se abre.
É quando Deus o chama
Para viver na Terra
Sua santidade.
É isso que acontece
Quando a vida é uma prece
E o homem ama,
Ama de verdade!

Quando o homem ama
O universo conflui
Para sua liberdade.
Seu coração se inflama,
E seu amor espalha rama
Sobre toda a humanidade.
Caem todas as fronteiras,
São derrubadas as barreiras,
Somem as desigualdades.
Não mais há diferença
De etnia, de crença,
Cultura ou idade.
Isso tudo desaparece
Quando o coração se enobrece
E o homem ama,
Ama de verdade!

Quando o homem ama
A natureza converge
Para sua felicidade.
Em terra tão formosa
A semente generosa
Tem brotar fecundo.
Seu campo se cobre de flor,
E seus joelhos se dobram em louvor,
Ao Eterno Pai, Criador,
De todas as coisas
Deste mundo.
E o Pai, por ele amado,
Não se deixa ver, derrotado,
Em generosidade e gratidão.
Devolve-lhe na colheita
O cêntuplo do que foi plantado:
No baú do seu celeiro,
Além do alimento pro ano inteiro,
Há a alegria de ter amado!

É isso que acontece
À humilde alma, que de amor fenece,
Sem esperar por ser amado!

***

SILVIA FLOR DE TRENTO
(Tributo a Chiara Lubich – 1920 – 2008)

Oh! Longínqua Trento.
Levantai-vos de vossas cinzas.
Não mais há bombardeios,
Nem rugem as devassas metralhadoras.
As sirenes se calaram,
Tão quanto se calaram
As vozes do teu povo.

Levantai-vos, oh! Trento.
Sob seus escombros
De aço e cimento
As luzes se acendem,
Os olhos se abrem,
E uma Sílvia Flor desponta!

Levantai-vos, oh! Trento.
Há uma nova estrela
Em teu céu cinzento.
Abri-vos os olhos,
E olhai com vossos corações:
Uma nova Fênix alça vôo
Por sobre vossas colinas.

Levantai-vos, oh! Trento.
Não mais há razões
Para teu sono profundo:
Mais forte que teu choro
E teu lamento,
É o bálsamo
Do sangue de seu rebento,
Que hoje jorra
Sobre as chagas deste mundo!