A FAMÍLIA E A COMUNHÃO DE BENS

A verdadeira família, instituída segundo os moldes de Deus em sua magnitude de amor, gerada em consequência de um matrimônio de comunhão e partilha – [Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne – Mt 19,5] – só tem razão de ser e existir se em sua plenitude estiver inserida  a comunhão total dos bens. Sem esse aspecto, vivido primeiramente pelo casal e posteriormente estendido aos filhos através do exemplo contido na relação construída entre os cônjuges, não se poderá falar em comunidade de amor.

A comunhão dos bens, não só na família, mas em toda comunidade cristã, tem uma relação muito mais ampla que somente a questão financeira ou o ato de se colocar algo em comum. Comunhão é partilha. E para partilhar, tanto no âmbito material quanto espiritual, o primeiro passo é acreditar e vivenciar a presença de Deus naquele ato. É preciso ter a consciência de que se constrói muito mais quando dividimos (no verdadeiro sentido de partilha) o que temos, sem a medida humana de querer presenciar ou obter o resultado imediato, esperado ou planejado.

A comunhão dos bens passa antes de tudo pela comunhão de almas. E é vivenciando o amor recíproco que construímos essa comunhão. É impossível compartilhar o que não temos. É impossível viver em unidade, sem construir a unidade. É impossível gerar comunhão, sem gerar Jesus em meio, ou seja, gerar a presença D’Ele entre nós.

Para colhermos o fruto se faz necessário, antes de tudo, plantar a árvore. Mas plantá-la somente não basta. Bons frutos dependem de boas sementes, de terra fértil, de cuidados diários e, acima de tudo, de uma boa poda. Uma árvore que sofre uma poda no tempo certo perde o galho ou o ramo cortado, mas ganha na qualidade do fruto que certamente virá.

A comunhão dos bens inicia-se na percepção do tudo que podemos perder em benefício daqueles que estão à nossa volta. Um perder do ter para construir um ser comunhão e um estar em comunhão.

A simplicidade da comunhão dos bens, se vivida com amor, pode transformar a vida de famílias inteiras, como a de um casal que compartilhou sua experiência num encontro de famílias que participei recentemente: “Procuro valorizar ao máximo o trabalho de meu esposo. Sei o quanto custa a ele o esforço cada vez maior em trazer o sustento para cada um dos cinco membros da família. Quando vou à cozinha preparar o almoço, meço com cuidado cada porção a ser feita. Peço a Deus que seja sempre o suficiente para que todos comam à vontade, mas que não seja nada desperdiçado. Não jogo nada fora, reaproveito as sobras usando a criatividade em novas receitas de bolinhos, tortas etc. Não é avareza. Preparo com amor toda a comida e agradeço por tê-la em casa.

Quando vou lavar a alface, por exemplo, procuro abrir a torneira o mínimo possível para que não haja desperdício, sei quantas pessoas não tem o que comer ou beber. Aproveito ao máximo as folhas da verdura, até mesmo o talinho, aquela parte mais durinha. Para minha surpresa, um dia à mesa, meu filho de cinco anos testemunhou: – Mamãe, a salada está uma delícia! Mas a  parte que eu mais gosto é o durinho da folha. Faz um barulhinho quando a gente come”.

O marido completou: “Percebo o quanto é difícil para ela o trabalho doméstico e o quanto ela se coloca no amor para dar conta de tudo. Consideramos tudo que temos como se nos fosse emprestado por Deus por um determinado tempo, e que, tivéssemos de devolver a Ele, a qualquer momento, na pessoa de um irmão próximo. Ao comprar uma roupa, por exemplo, pensamos também em quem a poderia usar, quando não mais nos servisse. Assim, por entendermos que o bem não é nosso, o valorizamos muito mais ao colocá-lo em comum. E somos felizes por isso”.

A harmonia criada quando colocamos em comum o fruto do nosso esforço, gera no outro uma reciprocidade, que quando verdadeira, autêntica, leva-nos até ao sacrifício, superando tanto os problemas causados pela falta de dinheiro quanto pelo excesso. Este amor que nos capacita a dar a vida pelo outro, transborda do casal para os filhos, que entendendo os limites financeiros dos pais, tornam-se solidários com os irmãos. Não há desperdício e o que sobra é partilhado, observando a dignidade de quem recebe. Vivendo esta perspectiva do amor recíproco (a comunhão total dos bens) até mesmo os momentos mais difíceis são enfrentados corajosamente, compartilhando o peso da cruz com Jesus Abandonado (*).

A abundância não se acumula e mesmo grandes quantias são generosamente cedidas a quem mais precisa.  Aquele mesmo Pai que socorre na pobreza, recompensa com o cêntuplo esta generosidade. Quando procuramos viver a comunhão dos bens, inspirados na vontade de Deus, reflete-se em nossa família o retrato da primeira comunidade cristã, que colocando tudo em comum, faziam circular um amor recíproco contagiante capaz de mudar tudo ao seu redor (At 4, 32-37).

É necessário então sermos fiéis nas pequenas coisas, para realizarmos esta comunhão. É preciso renunciar ao consumismo proposto pela sociedade moderna, avaliando em unidade com o (a) esposo (a) o que realmente é prioritário como necessidade básica da família. É indispensável uma previsão de gastos mensais e o compromisso de todos em não ir além desta previsão, e se possível, constituir um modelo de poupança adequado à realidade de cada família. Adequar-se a estas despesas e proporcionar aos filhos a chance de demonstrar que também fazem parte deste comportamento é ponto fundamental para a construção da partilha.

De fato, cada vez mais, no mundo de hoje, se faz necessário a educação da vontade dos nossos filhos. O autoritarismo dos pais no passado deu lugar hoje à permissividade sem limites. Essa atitude tem formado jovens frágeis e inseguros.

A arte de educar consiste em fazer a criança descobrir todos os dons escondidos nas suas pequenas renúncias. Ela, de fato, não renuncia facilmente a uma satisfação se não for por outra ainda maior. Não se trata de dizer não e basta; mas de estimulá-la com a perspectiva de um bem maior. Dizer um não custa tanto àquele que o diz quanto a quem o escuta. Como pais e educadores, devemos estar firmemente convictos do bem que esse esforço faz na educação das crianças. O não é um dom necessário! É ele que constrói os limites dos nossos filhos e dá a eles a sã possibilidade de escolhas futuras.

Lembro-me perfeitamente de um dia em que estávamos em um supermercado, eu e minha filha Maria Clara, de seis anos, fazendo a compra para o fim-de-semana. Ela pegou um pequeno carrinho e o encheu com muitos brinquedos, doces e revistas. Vendo aquilo, aproximei-me carinhosamente e disse-lhe que naquele momento não tínhamos condições de comprar tudo aquilo. Na sua posição de criança quis saber por que não podia.

Disse-lhe: “filha, olha essa boneca. Você tem uma muito parecida com ela e só tem uma na prateleira do mercado. Se você comprar essa, uma outra criança que não tem nenhuma, não vai poder comprá-la. Não seria um ato de amor deixar essa boneca para uma outra criança? O mesmo acontece com todas essas revistinhas, não é mesmo?” Dizendo isso, fui para a fila do caixa. Minutos depois ela chegou. Percebi que havia devolvido muitas coisas na prateleira.

No caminho de volta para casa, após alguns minutos de silêncio, ela chamou-me olhando pelo retrovisor interno do carro e disse:

– Papai, você não precisa comprar um monte de presente para mim.

– É filha, por quê? Perguntei-lhe.

– Por que você já é o meu presente!

Meus olhos encheram-se de lágrimas e percebi então o quanto é verdadeiro o amor de Deus por nós. Ele não deixa passar em vão um esforço de amor. Ele não se deixa vencer em generosidade. A recompensa por tê-la amado em um pequeno gesto de comunhão, foi capaz de gerar entre nós a presença extraordinária de um Jesus que jamais nos abandonará.

(*) Expressão utilizada por Chiara Lubich (1920 – 2008) fundadora do Movimento dos Focolares – Obra de Maria, para significar o sofrimento de Jesus quando se sentiu abandonado pelo Pai. (Mt 27,46).

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A Luz do mundo

Esta noite eu tive um sonho: Caminhava eu pela praia, quando percebi uma luz ao meu lado. Parei e a Luz parou junto a mim, e, uma voz soou-me aos ouvidos:

– Vem Comigo!

Sem exitar, caminhei com Ele por um longo tempo. Então lhe perguntei:

– Senhor, para onde vamos?

– Vou  mostrar-lhe o portal da Vida e da Morte, para que creiais!

Caminhamos lado-a-lado, como velhos e bons amigos, procurando nos conhecer. Paramos diante de uma grande escadaria, de construção muito antiga, mas bem conservada. As portas eram grandes e altas. Subimos num passe de mágica.

Corri de lado a lado, observando cada detalhe, cada centímetro daquele lugar. Quando já estava quase exausto, o Senhor tomou-me pela mão, abriu o portal e disse:

– Venha!

Entramos em um imenso corredor. Ao fundo, uma Luz intensa irradiava vida e energia ao lugar. Jamais vira antes uma luz tão clara de brilho tão forte. Perguntei-lhe:
– Senhor, que luz é essa?
– Sou Eu. Respondeu-me. Eu sou a luz do Mundo, a verdadeira luz da vida. Quem crê em mim, será iluminado e estarei com ele para sempre.
Percebi então, que havia muitas portas que davam para aquele corredor. Perguntei-lhe novamente:

– Senhor, que são estas portas?

– São os caminhos que todos precisam percorrer. São vossas escolhas do dia-a-dia. O livre arbítrio foi vos dado por amor para que sejam donos de sua escolha.

– Senhor, Percebo que as portas são divididas ao meio, uma superior e outra inferior e suas fechaduras são ambas do lado direito. Qual a razão?

– Filho, não basta escolher o caminho. Precisas caminhar sobre ele. Todas as portas levam a mim tal qual caminhos iluminados pelo amor. O Amor precisa ser amado. Assim, estas portas, superior e inferior, só poderão ser abertas ao mesmo tempo, com a mão direita.

– Senhor, só temos uma mão direita! Como poderemos abri-las ao mesmo tempo?

– Os Esposos perante Deus são Um. No entanto possuem duas mãos direitas. Os solteiros, virgens, consagrados, viúvos poderão ser um com o seu próximo. Desta forma  a porta escolhida se abrirá.

A porta superior é a sua. É a cabeça. A inferior é a do próximo. São as pernas. Se abrires somente a superior, serás tomado pela luz da sabedoria e do entendimento. Compreenderás o caminho, mas não andarás sobre ele. Suas pernas ainda estarão nas trevas. Se abrires somente a inferior, seu caminho será iluminado, mas suas pernas obedecerão uma cabeça sem luz. Seja luz e sabedoria, assim, caminharás com segurança na direção certa e jamais estarás só.

– Senhor, percebo vários fachos de luz que dividem estas portas como se fossem quarteirões. Eles não têm a mesma intensidade da Vossa luz. Quem são?

– A escolha do caminho é tão somente a primeira escolha. Muitos alcançam a luz eterna. Outros perdem-se ao longo da caminhada. Estas luzes são os caminhos de volta para aqueles que precisam recomeçar. Todos os caminhos dão a mim. Uma vez feito a escolha, estarei contigo. A intensidade da tua luz depende da proximidade que manténs da fonte eterna.

– Senhor, se são caminhos de volta, por que vejo pessoas tentando sair por eles?

– Estão perdidos. Alguém precisa tomar-lhes pelas mãos e mostrar-lhes novamente o rumo certo.  Assim, manifestar-me-ei neles e farei deles minhas testemunhas para que se cumpra o que foi escrito: “ Eis que bato à tua porta. Se abrires, entrarei e em ti farei morada. Comerei contigo e  o sangue do Cordeiro será derramado sobre tua Cruz.  Se creres em mim, nova Criatura serás.”

Eis então o tempo que vos anuncio o novo Caminho!

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A MINHA JANELA E O PÔR DO SOL

Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores e ouvir os pássaros. Quero tirar a venda dos meus olhos para ver o pôr-do-sol e, pôr o sol nos olhos do meu semelhante. Quero soltar as amarras do meu coração para sentir na alma o doce afago do colo do meu Senhor.

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ADOLESCÊNCIA: IDADE DA SOLIDÃO

Franciele Monik Zanutto, Faculdade Ingá – UNINGÁ
Isabela Cristina Bonadia Veroneze, Faculdade Ingá – UNINGÁ
Nivaldo Donizeti Mossato, Faculdade Ingá – UNINGÁ
Rodrigo Robson Lolatto, Faculdade Ingá – UNINGÁ
Patrícia M. de Lima Freitas

Palavras chave: Adolescência;  Solidão;  Família.

O presente trabalho foi realizado como prática da disciplina de Psicologia do Desenvolvimento II do curso de Psicologia da Faculdade Uningá. Através de uma revisão bibliográfica procuramos demonstrar neste trabalho, o quanto é difícil atravessar a adolescência, sem deixar que a solidão impregne suas profundas marcas no psíquico do jovem, de forma a construir negativamente seu caráter, distanciando-o das suas raízes familiares e destruindo, na maioria das vezes, uma construção psíquica e cultural proposta desde os primeiros dias da infância, pelos pais e pela sociedade a qual pertencem.

Desta maneira, entre as tantas fases do desenvolvimento humano, a adolescência é a mais conflitante. Inicia-se por volta dos dez ou onze anos, estendendo-se até a pós-puberdade, que tem sua conclusão aproximadamente aos vinte anos. No entanto, a adolescência pode ser vista em seus múltiplos vértices: psicológico, cultural, social, biológico e tantos outros que inserem-se em um processo que assume peculiaridades  de acordo com a cultura vigente.

Para Áries (1981) a infância, como período evolutivo e com necessidades específicas, é uma invenção da modernidade, tendo cerca de 150 a 200 anos: a adolescência é ainda mais recente referindo-se a um período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial (1918 e 1939). Até então se passava da infância para a idade adulta em um curto espaço de tempo, após breves rituais de iniciação, tanto que Freud, pai da psicanálise nunca usou a palavra adolescência, pois esse termo não existia na língua alemã de seu tempo. Referia-se a esse período como juventude ou puberdade.

As variantes deste desenvolvimento humano, através dos séculos, oscilaram em suas visões e necessidades, culminando em uma nova definição, onde a adolescência surge como um importante período de transição entre a infância e a fase adulta, não só no fator psíquico, como também físico, no aspecto de amadurecimento dos órgãos genitais e do aparecimento de caracteres sexuais secundários.

Para Outeiral (2008), a adolescência é composta de três etapas que se misturam em suas características enquanto se processam e se alteram  num constante vai e vém, determinando-se como: adolescência inicial (entre 10 e 14 anos), tendo como características básicas as transformações corporais e alterações psíquicas derivadas destes acontecimentos. A adolescência média (dos 14 aos 17 anos) tem como seu elemento importante as questões relacionadas à sexualidade, em especial, a passagem da bissexualidade para a heterossexualidade. A adolescência final (de 17 a 20 anos) sendo caracterizada pelo estabelecimento de novos vínculos com os pais, a questão profissional, aceitação do novo corpo e dos processos psíquicos do mundo adulto.

Já para D’Andrea (2006), considerando os aspectos fisiológicos como ponto de referência, estas etapas são definidas como pré-puberdade, puberdade e pós-puberdade.

No entanto, registra que a essa divisão por idade é totalmente arbitrária, pois defrontamos com adolescentes antes dos 10 anos, assim como após os 20 anos.

Essa difícil fase do desenvolvimento humano encontra suas barreiras em conflitos emocionais relacionados à reorganização do aparelho psíquico e ao reencontro deste ser na sociedade a que pertence, visto que deixou de ser criança e ainda não atingiu a sua maturidade, deparando-se com o medo da nova realidade a ser assumida: um novo padrão de comportamento e relacionamento que o projete no mundo adulto. Esse período de contestação gera uma situação conflitante que por sua vez pode levar esse jovem a reprimir-se ou isolar-se num sentimento de solidão.

Este sentimento relacionado aos conflitos provenientes do medo do “novo”, do desconhecido caminho a seguir, pode ser visto sob dois aspectos: o positivo, quando promove o crescimento e o desenvolvimento do ser humano como pessoa; e o negativo, quando o leva a um sentimento de rejeição tanto de si mesmo, quanto do mundo que o cerca, projetando-o ao egocentrismo e a autopiedade, culminando na autodestruição.

A infância é um período onde se constrói o companheirismo, a confiança e o respeito entre pais e filhos. A comunicação é de extrema importância nesta construção. Quando esses fatores falham ou ocorrem de maneira inadequada essa criança chega à adolescência desestruturada, podendo assim proporcionar motivos para levá-lo à solidão.

A indecisão entre a vontade da independência e o medo da responsabilidade, faz com freqüência exigências e reivindicações ambivalentes. Os pais sentem-se desconcertados e confusos por suas imposições e protestos contraditórios, gerando assim certa incompreensão e sensação de estranheza, freqüentemente recíprocos. O adolescente sente-se inseguro em papéis que não lhe correspondem, percebe imposições intoleráveis, sente alteradas as suas mensagens e suas exigências.

Para Miceli (2006) na adolescência o jovem se projeta fora da família, o pai e a mãe deixam de ser referências para esta criança. Os personagens e ídolos servem agora como modelo para este jovem. Por outro lado, os relacionamentos com os colegas se tornam mais destacados: o adolescente tem necessidade extrema de ser acolhido pelo grupo do mesmo sexo, e começa a se firmar também nos relacionamentos com o sexo oposto. Entretanto, o sentimento de solidão pode estar presente em qualquer lugar ou situação, ocorrendo até mesmo durante uma festa com os amigos, no trabalho ou dentro de casa com a própria família, por existir medo da intimidade, de deixar-se conhecer, de ser rejeitado, por haver timidez, incompreensão e desejo de possuir um relacionamento que nunca acontece.

Para Levy (2001), o adolescente oscila entre quatro ambientes que funcionam como refúgios psíquicos que podem ajudá-lo a organizar seus sentimentos de forma construtiva ou fazê-lo mergulhar na solidão e no abandono. Estes ambientes que são: a família, o mundo adulto, os grupos de adolescentes e o isolamento são caminhos que quando percorridos na normalidade promovem um amadurecimento mais tranqüilo, e que, quando percorridos de forma que o adolescente promova uma fixação rígida em uma dessas comunidades torna-se uma psicopatologia.

Esses grupos são caminhos pelo qual o adolescente terá que passar para concluir sua caminhada rumo à maturidade. A forma pela qual será conduzido por eles é que fará a diferença entre ser um individuo normal ou problemático.

No adolescente mais próximo à normalidade, observa-se a utilização desses grupos como refúgios psíquicos que o auxiliam a conquistar um espaço mental com maior adequação que poderá induzi-lo a sobrepujar a ansiedade, amenizando o sentimento de solidão. Por outro lado, quando fixa-se em demasia em qualquer um desses grupos pode absorver experiências que o conduzirá com freqüência a uma expectativa solitária.

Outro fator relevante que conduz à solidão é a baixa estima, pois tendo pouca confiança em si mesmo é difícil sentir-se apto para criar relacionamento com outros de sua idade. Esse sentimento surge muitas vezes das avaliações físicas, sendo a aparência e o comportamento questões protuberantes na sociedade, provocando assim um retraimento.

O aumento nas atividades e a obsessão pela eficiência geram sentimentos de inferioridade e inutilidade. A modernidade e a tecnologia levam o jovem a alienar-se do mundo cada vez mais, incapacitando-os de amadurecer através das experiências que o contato social proporciona.

Contudo, ao invés de enfrentar a solidão, há uma busca desenfreada para afastá-la, na ilusão de que algo ou alguém possa livrá-lo desse sentimento. Essa busca acaba levando-os a caminhos negativos e, muitas vezes, querem libertar-se através de bebidas, drogas, ou até mesmo tornando-se dependentes de alguém próximo, pois descrêem de sua capacidade de cuidar de sua própria vida emocional e esperam que os outros supram suas necessidades, e estes, por sua vez, sentem-se sufocados e tendem a afastarem-se mais ainda destes jovens.

Nesta fase da vida o adolescente promove, devido aos seus sentimentos ambivalentes, uma verdadeira busca do outro fora do seu ambiente familiar, no entanto, sempre retorna às suas raízes para certificar-se de que não houve um rompimento definitivo com seus pais e para reabsorver seus padrões de relacionamento.

Quando a família estrutura-se de forma a promover esse relacionamento de confiança com o jovem adolescente, dá a ele condições de, na medida em que evolui em seus questionamentos, encontra subsídios para enfrentá-los de forma condizente a um amadurecimento adequado, fazendo com que o sentimento de solidão, tão presente nesta fase do desenvolvimento, seja amenizado, interferindo de forma menos agressiva no ambiente psíquico do jovem adolescente.

Não é nada fácil, tanto para o jovem  adolescente quanto para sua família lidar com estes conflitos, pois, ambas as partes perdem-se em meio a estes paradigmas e sentimentos, de forma a, muitas vezes, desestruturar-se em suas crenças e convicções.

No entanto, quando a troca de experiências entre o jovem e a família tende a estruturar, ao longo dos anos, uma relação de confiança mútua, criará no adolescente a certeza que, mesmo em meio a tantos questionamentos e à vontade de buscar lá fora, longe do seio da família, o “conhecimento do mundo dos adultos”, mais cedo ou mais tarde poderá retomar esta relação sem que as “perdas” sejam  tão significativas para seu  mundo psíquico, reiterando para si mesmo um amadurecimento onde a solidão terá uma “breve” e natural passagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
– ARIÉS, P. História social da criança e da família. 2². ed. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1981.
– D’ANDREA, F.F. Desenvolvimento da personalidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
– LEVY, R. O adolescente. IN: EIZIRIK, C.L. et.al.(org.) O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. São Paulo: Artmed, 2001.
– MICELI, M. Sentir-se só. São Paulo: Paulinas, 2006.
– OUTEIRAL, J. Adolescer. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2008.

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COMUNIDADES ESTIGMATIZADAS

Quem de nós, não carregou consigo durante parte da sua vida, ou ainda carrega o peso de uma marca indesejada? Quantas vezes, deliberadamente, não julgamos uma ação, rotulamos, manipulamos, deixamos marcas profundas, conscientes ou inconscientes naquelas pessoas que convictamente amamos?
Um simples apelido que para muitos poderia ser até carinhoso, para outros pode carregar um peso insuportável, uma marca profunda que inevitavelmente irá abalar de alguma forma seu estado psíquico. Fatos como esses ocorrem diariamente na vida de muitas pessoas.
Não muito diferente, a estigmatização de uma comunidade, pode ocorrer a partir da confirmação, consciente ou não, de algum fator, que por um motivo ou outro, a marque ou distinga negativamente das demais. Marcas que podem transformar-se na sua própria identidade: um estigma que dificilmente poderá ser anulado.
Há incontáveis comunidades espalhadas pelo mundo que carregam consigo estigmas sociais que as marcam e identificam negativamente, promovendo a exclusão social e rotulando seus habitantes. Diariamente inúmeras manchetes escritas, faladas ou televisionadas, expõem inescrupulosamente essas feridas, reafirmando coletivamente esses estigmas, criando uma incontestável barreira social para as pessoas que, escolhendo ou não, residem nesses bairros.
Muitas vezes, ao buscar somente uma solução política para uma realidade social não é o suficiente para transformá-la, principalmente quando, mergulhado neste problema, encontra-se estereótipos, paradigmas, crenças populares que sustentam a manutenção dessa realidade.
Uma visão ampla do processo de estigmatização pode, entre outras coisas, traçar um mapa da mesma realidade comungada por outras comunidades, visto que, na base deste processo estão os baixos índices de escolaridade, a falta de preparo para o mercado de trabalho, a exclusão por anos a fio da comunidade dos programas de reabilitação do poder público, e, acima de tudo, como resultado da soma destes fatores, o alto índice de criminalidade envolvendo crianças, jovens e adultos. Índices estes que, expostos diariamente pela mídia, demonstram que mesmo a maioria dos crimes ocorrendo em outras regiões da cidade, grande parte dos envolvidos residem em bairros estigmatizados.
Outro fator relevante para a manutenção do estigma de uma comunidades, além da exposição diária dos seus pontos fracos pela mídia, é a continuidade, a repetição do processo já existente, pelas novas gerações que despontam como filhos da exclusão social. Um processo que avança de geração em geração e que precisa ser contido de imediato, não só pelo poder público, mas primordialmente pelo engajamento da própria comunidade em programas de resgate cultural, de alfabetização, preparação para o mercado de trabalho através de treinamentos específicos e de inclusão digital e o resgate da dignidade através de projetos promoção humana e de auto-estima.
A união de esforços entre o poder público, entidades assistenciais e empresas privadas, com uma participação maciça da sociedade parece ser o caminho mais curto para reverter a condição social dos bairros mais carentes. No entanto, o estigma que os acompanha só poderá ser vencido com a mudança do enfoque dado pela própria população residente nesses bairros ao resultado dos programas implantados e à forma com que são divulgados nos meios de comunicação de massa.
Projetos existem, mas precisam ser levados a sério tanto pelo poder público quanto pela população a quem se destina. Muitas vezes a falta de profissionais compromete o programa, outras, a própria comunidade não o valoriza em sua plenitude. Sem apoio e participação adequada qualquer projeto perde seu sentido e deixa de prover resultados satisfatórios. É necessário conhecer e participar para poder dar o devido valor às iniciativas que já existem e que buscam transformar essa triste realidade de estigmatização e exclusão social.
O primeiro passo da transformação pode ser dado na própria família, quando a mesma voltar o olhar sobre si, descobrindo e trabalhando suas próprias necessidades e, remeter seu apoio ao ambiente escolar e aos projetos sociais.
Romper com um estigma, com um paradigma social significa transformar a referida comunidade, em sua totalidade, em uma nova concepção comunitária. Vai muito além de asfaltar ruas, dar condições de transporte, trabalho, escola e saúde. O estigma está enraizado na mente e na cultura do povo.
Faz-se necessário mudar o olhar com o qual vemos tal comunidade de forma a fazê-la atuar com um novo olhar sobre si mesmo. É preciso fazer cicatrizar suas feridas psíquicas rompendo o círculo vicioso que promove a reprodução de um estado de estagnação e repetição da mesmice cultural que a aliena e a identifica. É necessário prover a cada indivíduo a condição ideal que o faça ver-se como pessoa humana, resgatando sua dignidade.
No entanto, os estigmas continuam. As manchetes de jornal continuam a mostrar a realidade nua e crua, através da visão ideológica que o convém: é preciso vender a notícia. Enquanto isso, as comunidades estigmatizadas tentam ocultar as veias expostas das suas feridas, na esperança que um dia cicatrizem. É preciso virar a página deste jornal.

Autores (Acadêmicos de Psicologia da Faculdade Ingá – Uningá):
André Seles
Marilene Salviano
Miriam Franco Santos
Nivaldo Donizeti Mossato
Raquel Borges
Orientação e supervisão: Profª Ms. Joselene Miriani

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O LENCINHO

Era julho de 2.002. A copa do mundo já havia começado. A novela global lançava mais uma ‘febre’ no mundo da moda: lencinhos amarrados na cabeça.
Maria Clara, minha filha caçula, na época com seis anos, lutava contra um linfoma que colocava sua vida sob um fio de navalha.
Devido a várias sessões de quimioterapia seus cabelos haviam caído, deixando-a carequinha. Naquele fim de semana ela foi convidada para uma festinha de aniversário de uma das suas coleguinhas.
Priscila, uma de suas irmãs, preocupada com o impacto que as amiguinhas teriam com a presença da Maria, trouxe-lhe vários lencinhos de cabeça de presente.
Curiosa, a Maria logo perguntou:
– Tata, o que é isso?
– São lencinhos pra colocar na cabeça. É a última moda, sabia?! Todo mundo está usando, e você vai ficar linda com eles!
A Priscila colocou um lencinho na cabeça da Maria Clara, amarrou e fez muitos elogios:
-Ficou lindo! Você vai arrasar! Vai fazer o maior sucesso.
A Maria ficou toda faceira. Olhou no espelho, virou pra cá, virou pra lá e, após alguns instantes em silêncio falou:
-Tata, quem gosta de mim, vai gostar de mim de qualquer jeito. Eu não quero usar nada na cabeça. Tô legal assim.
Acredito que para não desmerecer o presente ou deixar a irmã triste, naquele dia ela foi à festinha com o lenço. No entanto, chegou em casa sem ele. Nunca mais o usou.

Sempre me recordo daquele dia e das lições que aprendi com ele. Há também um outro registro numa das páginas amareladas da minha agenda daquele dia: ‘Hoje aprendi que para amar o outro, verdadeiramente, se faz necessário irmos além das aparências, crenças ou estado de humor. A maior virtude não está em amar quem nos é afetuoso, mas em amar nossos inimigos. Nisso consiste a misericórdia’.

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O QUE FIZESTE COM OS DONS QUE LHE DEI?

O que responderíamos a Deus, se no juízo final, frente a frente, ouvíssemos esta indagação?    Muitas vezes em nossa vida usamos muito mal os dons que recebemos    de Deus. Outras vezes, cobramos um preço muito alto pelo que recebemos gratuitamente.
Igino Giordani* escreveu: “- Um escritor que crê,    não pode perder tempo com coisas inúteis;    seus escritos devem sempre doar Cristo”.
Não seria assim com todos os dons que recebemos? Um orador    em sua fala, dom gratuito de Deus, não deveria transmitir Cristo? Um músico, em suas canções não deveria fazer o mesmo? Levando em consideração que tudo provém da criação,    tudo o que temos é dom de Deus. Se Dele provém, a Ele deve retornar. E como servos, devemos multiplicar nossos dons, compartilhando-os de forma a transmitir uma só mensagem: – Cristo.
Quantos dons recebemos? Dezenas, centenas. Dons, não são somente aquelas coisas que fazemos de extraordinário. São as coisas que fazemos com amor. Simples, como é a vontade de Deus para cada um. Passar manteiga no pão que será servido a alguém, poder ser um dom inestimável, se o próximo o perceber no amor. Cantar uma canção, buscar um copo d’água, escrever um livro, dar um sorriso, cuidar de um doente por anos a fio ou um simples olhar. Tudo é dom de Deus. Não importa o tamanho, a grandeza. Importa o quanto amamos.
Escrever, cantar, estudar, aconselhar ou até mesmo ouvir para mostrar o dom que temos, nada mais é que egoísmo. Ouvir, falar ou escrever para doar Cristo é dom divino. Multipliquemos então nossos dons, colocando-os a serviço. No entanto, não o façamos por nós, nem pelo quanto receberemos por pagamento. Façamos por amor. Façamos por sermos    servos dignos dos dons que recebemos. Um dia Ele nos perguntará:
– Que fizeste com os dons que lhe dei?    (Mateus 25, 14-30)

*Igino Giordani – escritor e político Italiano, Blibliotecário do Vaticano e Co-Fundador do Movimento Focolares.

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O SER E O NÃO SER DO MUNDO

Na redoma da vida
Temos o livre arbítrio.
Podemos escolher em “ser” do mundo, ou, “estar” no mundo.

Para ser do mundo, basta seguir a corrente e deixar-se levar pelas ondas que nascem e morrem a cada instante. No entanto, para estar no mundo e não deixar-se dominar por ele é necessário muita coragem, persistência e determinação. É ser como a águia. Alçar vôo cada vez mais alto, cada vez mais veloz e preciso. Todavia, é certo preparar-se antecipadamente. Substituir os antigos hábitos, deixar de arrastar as pesadas penas, que impedem nosso vôo e nos fazem velhos, na flor da idade.

É como se fôssemos contra a corrente. Não é por que a maioria faz, que é certo fazer. Nem tão pouco é errado o que ainda não foi feito ou o que é praticado por um número menor de pessoas. É importante redescobrir e reaprender o verdadeiro sentido das coisas. A sua verdadeira essência, o seu verdadeiro valor. Com a velocidade em que o mundo caminha, com tantas evoluções tecnológicas em tão pouco tempo, fica impossível acompanhá-lo sem que se perca muitos valores e sentimentos. Com tanta transformação em tão pouco tempo, perdemos a noção do que é certo ou errado e muitas vezes embolamos o meio-de-campo, como diz os homens, até mesmo sem perceber. Valorizamos muito os bens temporais, como o computador, o vídeo game, o tênis de marca, e nos esquecemos, na maioria das vezes, de dar calor humano ao colega que está ao nosso lado, naquele momento. Acredito ser um preço muito alto a se pagar por um produto que se modifica com tanta rapidez.

Uma das coisas mais belas que aprendi é que ainda se pode confiar nas pessoas, em suas palavras, sonhos e promessas. Devemos retribuir a todo carinho com que somos tratados, desta forma, criamos um círculo de relacionamento onde o que predomina é o amor e a confiança.
Quando erramos, e erramos, fica muito mais fácil recomeçar por que confiamos uns nos outros. E isso nos faz acreditar ainda mais em nós mesmos, na nossa capacidade de contribuir para que as mudanças aconteçam e de fazer com que o nosso hoje se constitua num ponto positivo, capaz de melhorar ainda mais o nosso amanhã e de toda a comunidade a que pertencemos. Deixamos de ser o “eu” do mundo, para sermos um “nós”. As forças se multiplicam. As possibilidades se multiplicam. A caridade se multiplica. E tudo que doamos, por mais ínfimo que seja, retorna em abundância.
Dons materiais e espirituais podem ser colocados em comum. Desde um simples copo d’água, um sorriso, um aperto de mão, ou até mesmo trabalharmos todo um fim-de-semana reformando a casa do vizinho ou a escola. Fazer por amor a vontade do outro, quando o que eu mais queria era fazer a minha própria vontade: este é um outro dom que pode ser compartilhado diariamente, mesmo que exija de nós uma força sobrenatural.
Tudo pode ser compartilhado, tudo. Até mesmo nossas orações e nossos pensamentos. Aliás, nossos pensamentos são o alimento da nossa consciência. Por tanto, devemos vigiá-los constantemente.

Pense nisso. Paz e bem!

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PLANTAR E COLHER

Este texto é uma homenagem ao meu velho pai (in memorian), cujos últimos dezessete anos de sua vida foram em minha companhia.

(…) À sombra da mangueira, as crianças paravam para ouvir o velho guerreiro que, amarrado às suas lembranças, tecia em palavras as teias da sua vida: “Nasci neste local, em 23 de junho de 1922. Esta casa ainda não existia. Ela começou a ser construída quando eu já tinha de quatro para cinco anos. Isso tudo era mato. Meu pai plantou esta mangueira muitos anos depois, um pouco antes de partir para o paraíso. Lembro-me como se fosse hoje. Ele já estava bastante velho, e tantos anos trabalhados de sol-a-sol haviam lhe deixado muitas cicatrizes pelo corpo. Tinha uma saúde de ferro, embora aparentasse ser muito mais velho que realmente era. Um certo dia ganhou de uma senhora à qual ele sempre ajudava, uma cesta cheia de mangas. Repartiu-as com os filhos e depois de comer algumas, resolveu plantar um ‘caroço’. Deixou-o secar por dias. Fez a cova, preparou a terra, e quando ia plantá-lo, curioso eu lhe perguntei: – “Pai, o senhor acredita mesmo que um dia ainda irá comer desta fruta? Acredita que vai sobreviver à natureza desta planta que no mínimo vai demorar cinco anos para dar os primeiros frutos?”

Ele me respondeu:

– “Filho, não importa a época em que o fruto vem. É necessário primeiro que se plante. Não é importante quem comerá do fruto ou usufruirá a sombra. O que importa é o que você plantou. Um homem, meu filho, precisa ter raízes. Raízes profundas no chão, para que tenha o que comer e dar de comer aos seus filhos. Raízes na alma, para ter a quem pedir socorro nas horas difíceis e agradecer as graças recebidas. Raízes no coração, para ter a quem amar e ser digno de perdão. Raízes na família, para ter um lugar para onde voltar, depois de um dia de trabalho, ou de um século de guerra. Quem planta uma árvore pensando somente em ter um lugar onde amarrar sua rede, não é digno da rede, tão pouco da sombra que a árvore lhe proporciona. Antes de tudo, meu filho, é necessário preparar a terra, cuidar da semente e escolher o lugar ideal, para que a planta possa crescer forte e sadia. Só assim haverá a possibilidade de se colher bons frutos. Somos assim, meu filho, tal qual uma planta que precisa ser cuidada, regada e podada. A qualidade dos nossos frutos, dependerá do tempo que estivermos dispostos a ‘perder’ com eles”.

Conforme falava, seu semblante parecia retratar a imagem do pai. A emoção e o respeito misturavam-se em suas expressões. Levantou-se lentamente e sorriu. Respirou o frescor da sombra e olhou para cada um com os olhos da alma, e os viu novos, e se viu novo, como se ainda tivesse doze anos (…).

Do livro ‘O menino que queria voar’.

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SANTOS NO OUTRO

A busca de cada um de nós está intrinsecamente mergulhada na verdadeira razão do existir do homem. E a razão do homem, a sua estrutura, o seu ser, mergulhado na única via capaz de nos levar à realidade e realização plena, ainda em vida: – Deus!

Somos constituídos de duas faces, duas partículas distintas que livres no pensar e agir podem transformar um só ato no bem ou mal. Cabe a nós, que ainda temos um pouco de coerência no amor, decidir por milhões de pessoas que ainda nem se quer nasceram. O futuro é construído no agora. Em cada passo, em cada gesto, em cada palavra. O livre arbítrio nos dá acima de tudo, a liberdade de errar. E se errar, reconhecendo o erro, temos a liberdade, em Deus, de recomeçar. Somos novos no amor. Basta darmos o passo.

“Quem crê, nova criatura é.” A razão humana, não nos leva muito longe. Ou quando leva, não nos plenifica. Somos plenos só em Deus.

O passado, mesmo o de um minuto atrás, deve apenas nos servir de guia para que não cometamos os mesmos erros, no presente e no futuro. As amarras devem ser cortadas, mesmo que nos custe noites e noites de sono ou abandono. Não importa o quanto somos santos ou pecadores. Importa sim, estarmos sempre à caminho da santidade. Renovados Naquele que confiou uma grande missão à cada um de nós: “Que todos sejam um!”

Não importa o credo, a profissão, a cor. Sermos Um! Construir com cada um que cruza nosso caminho, uma edificante relação de amor. As cruzes são como Ouro virgem. Os sofrimentos, como diamantes brutos. O Ouro é purificado com o fogo. Os diamantes, lapidados retirando a robustez da pedra, deixando transparecer todo seu brilho, sua essência. O sofrimento lapida nossa alma. A cruz, vivida em Cristo, nos purifica e nos aproxima do oráculo do Senhor. Ele nos quer santos, refletidos e mergulhados no irmão.

Não santos do acaso. Não santos no isolamento dos conventos. Não santos, mártires da humanidade. Santos no outro. Santos do dia-a-dia dos nossos filhos. Das necessidades da nossa esposa, da nossa família. Santos dos pequenos atos de amor que transformam as pessoas que mesmo ao nosso lado, se isolam do mundo. Santos do ombro-a-ombro, misturados na multidão. Santos que caminham contra a corrente, tentando vencer a si mesmos para perder-se no outro. Mergulhemos então, no sabor da Paz, no verdadeiro sentido da vida.

Amemo-nos verdadeiramente em Cristo, deixando para trás o nosso “eu” tão mesquinho que nos obriga a cada momento ser o que não queremos ser. Somente após sentirmos a verdadeira proximidade com Ele é que poderemos valorizar as pessoas que nos são caras. Não deixemos que nossa vontade seja maior que nossa razão. Não deixemos que nossa razão seja maior que o testamento que Ele nos deixou: “- Amarás o Senhor teu Deus acima de todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo.”

Estejamos sempre a caminho!

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UM EMPRÉSTIMO PARA DEUS

Tenho refletido muito sobre a nossa responsabilidade em relação aos nossos pais e filhos. Este é um círculo da vida no qual estamos inseridos e somos responsáveis diretos. Se olharmos para trás, vemos que somos uma continuidade da vontade de Deus para com nossos pais, e, nossos filhos, a renovação desta vontade. Temos muitas vezes a certeza que nossos filhos são nossa propriedade e os educamos como tal. Com certeza, estes serão filhos do mundo. Se somos vontade de Deus, nossos filhos são frutos desta mesma vontade. Um empréstimo por tempo determinado. E como todo empréstimo, um dia teremos que efetuar a devolução deste capital. Podemos fazê-lo crescer e multiplicar-se; Podemos simplesmente ignorá-lo, ou pior ainda, deixá-lo deteriorar-se, imerso nas coisas do mundo.
Mas, repito: – Um dia teremos que devolvê-lo!
Alguns efetuam a devolução mais cedo, outros mais tarde. Outros, são devolvidos mesmo antes de verem suas espigas repletas de grãos.
Haverá com certeza a hora da colheita. Ela será feita, e, as espigas serão ceifadas de modo que algumas servirão de sementes para um novo plantio; assim, darão novamente frutos na terra. Outras, servirão de adubo para que a terra tenha força para uma nova colheita. Mas, ai daqueles que forem jogados aos porcos!
Um bom pai planta em seus filhos uma boa semente. Semente que se bem preparada, retorna à terra para dar frutos em novas espigas. Espigas que repletas de boas sementes, serão novamente semeadas em terra fértil, continuando o círculo da vida, em Deus.
Uma boa semente precisa de bons cuidados. Um bom plantio depende de um bom clima, de uma boa terra, adubada e preparada. Depende também, da proteção contra “as pragas” que com certeza, encontraremos pelo caminho até a época da colheita.
Tem a hora certa e o tempo certo do plantio, da poda, da capina e da colheita.
É necessário proteger a semente!
Embora proteger, não significa “ocultá-la” das intempéries da vida.
Não se protege uma semente do frio, ocultando-a no calor. A proteção vem da “climatização”, ou seja, pouco a pouco fazemos com que a semente adapte-se à nova situação climática, tirando dela a melhor produtividade. É assim com nossos filhos.
Um bom pai, protege seu filho.
Não ocultando-o das “coisas” do mundo ou dizendo “Sim” para todas as suas vontades. Quem ama, diz “não”! Toda hora e vez que se fizer necessário.
Uma boa árvore dá bons frutos quando se faz a poda no momento certo.
A semente (o filho) depende de uma    perfeita    interação    entre    a    qualidade    do solo (o pai ) e a harmonia do clima ( a mãe ) para ter reais chances de transformar-se em boa espiga. Não é o pai ou a mãe que educa. É o resultado do relacionamento entre os dois (unidade) que irá incutir na criança a exemplificação do que se pode ou não fazer.
A verdadeira educação se faz em primeiro plano com atitudes. Posteriormente, com palavras. Vive-se, e raramente será preciso corrigir. Embora, na hora da poda, se faz necessário arrancar com convicção alguns galhos, para que possamos ver, no futuro, uma frondosa árvore dando bons frutos. E esta convicção é que nos dará respaldo para respondermos quando indagados por Deus:

– ” O que fizeste com as sementes que lhe dei?”.

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VITRINE DE NATAL

Hoje eu vi Jesus.
Ele estava em pé, em frente a uma vitrine, no centro da cidade. Reconheci-O imediatamente. Trajava uma túnica de linho branco e calçava sandálias de couro cru. Seus cabelos eram longos e por sobre sua cabeça reluzia uma coroa de espinhos. Seus braços, estirados em direção ao personagem central daquela cena, pareciam implorar por algo infinitamente impossível. Em suas mãos, duas chagas eram visíveis: inconfundível marca da cruz!
Seus olhos, refletindo tristeza no vidro da vitrine, brilhavam tal qual as luzes que enfeitavam o cenário. Seu semblante parecia suplicar: eis-Me aqui!

Crianças brincavam dentro da vitrine. Flashs e mais flashs registravam em máquinas digitais a branca barba do homem, que vestindo vermelho e branco, distribuía balas e sorrisos. Pilhas e mais pilhas de presentes caminhavam nos braços dos transeuntes que atropelavam-se no interior do loja.

Do lado de fora, a noite caía, enquanto a multidão ia e vinha sem se perceberem. Aproximei-me devagar. Pude notar que em sua túnica branca havia também o vermelho: gotas de sangue que escorriam pelos cabelos e manchavam suas vestes. Aproximei-me ainda mais, até o ponto de fixar meus olhos nos Seus, refletidos na vitrine. Percebi então, que o brilho dos seus olhos eram lágrimas. Estendi minhas mãos e toquei-lhe as vestes, que imediatamente foram ao chão, deixando transparecer as marcas do mundo. Também foi ao chão a coroa de espinhos. Recuei! Apagaram-se todas as vitrines. Somente a intensa luz que exalava do manto de linho branco se fazia ver. Meus olhos queimavam de medo e dor. Tapei-os com minhas mãos e, por entre os dedos vi o milagre: do breu da noite surgiu uma virgem de olhar terno e sorriso manso. Com os braços abertos, caminhou em direção às vestes que jaziam no chão; enquanto um menino renascia num facho de luz.

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VOCÊ É UM ANJO?

Estava atrasado. As horas passaram tão rapidamente naquela manhã que quando me dei por conta o relógio já batia quatorze horas.
Entrei no escritório. Sobre a escrivaninha, uma pequena boneca parecia fitar-me. Parei à sua frente. Minhas mãos tocaram seus cabelos como se fossem de uma criança que, à espera de um carinho, adormecera.
No ímpeto daquele instante, sem nenhum motivo aparente, apanhei-a, coloquei-a em minha bolsa e saí.
No carro, a caminho da escola, alojei a bolsa sobre o banco do passageiro. De minuto a minuto meus olhos se desviavam para certificar-se que estava ali. Impaciente, abri a bolsa e apanhei a boneca, que parecia querer dizer-me algo. Acomodei-a sobre o volante de forma que pudesse vê-la enquanto dirigia. Seus longos cabelos negros esvoaçavam com o vento que invadia o automóvel. Por um momento meus pensamentos voaram sem destino, para um mundo de fantasias, onde as bonecas tinham vida; enquanto o carro invadia a pista contrária. O som de uma buzina fez-me voltar a atenção à estrada. Voltei a si e coloquei-a novamente na bolsa e fechei o zíper, tentando dizer-lhe: ‘fique quieta! Não saia daí’. Fez-se silêncio em minha alma, mas nem por isso o tempo parou.
No pátio da escola, crianças corriam por todos os lados, aproveitando os minutos do recreio. O barulho era ensurdecedor. Desci do carro e tomei o corredor principal que dava para a sala dos professores. Algo ainda me inquietava o coração. Antes que eu pudesse tocar a maçaneta da porta uma pequenina mão segurou a minha, tendo como fundo um grito estridente: ‘professor! Professor!Tem uma menina chorando. Chorando muito! Tentei falar com ela, mas ela não para de chorar. Acho que ela brigou com alguém. Vem vê…vem vê’.
Tomado pela surpresa deixei-me levar. A menina aparentava oito anos. Estava sentada num banco rústico, feito do tronco de uma árvore, num canto isolado do pátio. Seus cabelos negros caíam por sobre a face, ocultando o choro, enquanto o soluço e as lágrimas se faziam eminentes. Abaixei-me. Minha presença parecia insignificante. O soluço aumentava, amparando o desespero daquele choro sentido. A criança chorava com a alma, alheia ao resto do mundo.
Minha mão roçou-lhe os cabelos e parou em seu queixo. Suavemente, levantei-lhe a cabeça, tentando ver seus olhos. A criança desesperou-se. Ajoelhei-me e abracei-a em silêncio, apertando-a contra meu peito. Ficamos assim por um instante, até que uma frase, intercalada de soluços, rompeu os dentes cerrados: ‘eu…não sou o que…aquele menino disse! Eu não sou! Não sou’!
Apertei-a ainda mais contra meu peito, como se confirmasse suas palavras: ‘tenho certeza que não é’! Aos poucos, a criança foi se acalmando. Antes, porém, de um último soluço, outra frase apunhalou-me os ouvidos: ‘eu não sou como minha mãe! Eu não vou fazer o que ela faz…’!
Estremeci, enquanto o desespero saltou novamente sobre a menina. Meus olhos transbordaram o que meu coração sentia. Nem mesmo era necessário compreender suas palavras. Bastava-me compreender seu sofrimento. Sofri com ela. Abracei-a! Era como se sua dor fosse minha dor. Era como se sua mãe fosse minha mãe. Era como se aquela coroa de espinhos que estraçalhava seu pequenino coração pudesse coroar o também o meu. Suportei em silêncio aquela dor, enquanto, aos poucos, aquela criança se abandonava no meu colo…por um imenso segundo…interrompido pela sirene da escola.
Levantei-me e com os polegares enxuguei-lhe as lágrimas, que ainda escorriam, em silêncio. Ajoelhei-me novamente, abri minha bolsa e apanhando a boneca sorri-lhe: ‘eu trouxe pra você’! Entre as lágrimas, a garotinha deixou escapar um sorriso. Apanhou a boneca, abraçou-a e apertando-a contra seu colo inclinou a cabeça. Seus cabelos longos caíram sobre sua face, e, ocultando parcialmente a boneca, revelou uma incrível semelhança: pareciam gêmeas! Levantou a cabeça lentamente e, enquanto segurava a boneca com uma das mãos, a outra procurava meu pescoço. Abraçou-me com confiança, enquanto seus lábios pronunciaram as palavras mais doces que já ouvi: ‘você é um anjo’?
…e a sirene tocou novamente, chamando-a para a sala de aula.